terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cada um tem o desktop que merece


Estava sozinha em casa e não conseguia me mexer direito. Isso me deu tempo para pensar em uma série de coisas que eu compartilharia com um terapeuta, se ao menos eu tivesse um. Até me indicaram um cara que dizem valer cada centavo dos cento e cinquenta reais que ele cobra por sessão. Mas a loja de sapatos estava liquidando, então resolvi adiar meus planos psicanalíticos para o mês que vem.
Imóvel no chão do meu quarto, lembrei-me do dia em que estava deitada na cama de alguém que disse que precisava organizar a vida dele como quem organiza o desktop de um computador. Na hora eu não contei nada. Devo ter dado um sorriso cínico e dito algo como "boa metáfora". Mal sabia alguém que em 20 de junho de 2009 eu tinha começado este texto, cujo título mantive inalterado.
Minha vida está uma zona, eu dizia, logo no primeiro parágrafo. Ok, mentira. Deixa eu reformular. Minha vida é uma zona. Uma bagunça que eu tento arrumar há anos e nunca acho tempo. E quando o tempo aparece, falta a vontade.
Mas agora veio o tempo e a vontade, junto com uma estranha curiosidade de baixar as músicas da Lady Gaga. Coloquei uma delas para tocar e comecei a arrumar meu quarto. Posso ainda não ser capaz de organizar meu tempo e controlar minhas finanças, mas, por deus, eu consigo arrumar umas gavetas. E, quem sabe, umas prateleiras, uma escrivaninha, um armário.
Foi quando, no auge do meu entusiasmo, eu me apoiei em um dos cabides para alcançar a porta de cima do guarda-roupas e caí no chão. Feio.
Achei que a situação não poderia piorar, quando percebi que o iTunes estava no modo repeat. Ficar imóvel caída no chão pode parecer assustador, mas ficar imóvel caída no chão ouvindo Lady Gaga é muito, muito pior. Seria um jeito extremamente ridículo e constrangedor de morrer. Fiquei imaginando minha mãe contando a história para as pessoas:"E então eu entrei no quarto dela e tocava Paparazzi no último volume." Seria mais digno se eu estivesse ouvindo Madonna ou alguma outra cantora da terceira idade.
Então eu lamentei por não ter tido mais tempo. Se me dessem um último pedido, seria o de finalmente limpar meu desktop. Porque ele é a síntese perfeita do caos que rege minha vidinha medíocre. Exatamente como alguém me disse uma vez, enquanto eu deitava em sua cama, tão imóvel quanto agora, estendida no chão.
Pouco a pouco, fui recuperando o controle dos movimentos, até conseguir me levantar de vez. Sem pensar muito, fui direto até o computador fazer o que eu já devia ter feito desde junho de 2009. Organizar minhas pastas, cheias de downloads incompletos e frustrações acumuladas. Já era tempo de colocar cada coisa em seu lugar, escolher um papel de parede novo e reiniciar o sistema.
Dizem que quando você não faz isso, a Lady Gaga vem tem buscar.


video

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Da série: diálogos psicóticos


"Um petit gâteau, por favor", pedi.
"Mais alguma coisa, senhora?", a garçonete perguntou.
"Não, não. Só o petit gâteau mesmo."
"Ok, senhora. Quinze minutinhos, tá?", ela avisou, virando-se para ir embora. Não fosse pelo broche com o nome "Claudete", eu poderia jurar que se tratava de um traveco. Se bem que Claudete não é exatamente um nome livre de suspeitas.
"Ah, espera", eu disse, interrompendo a saída dela. "Pode ser sem sorvete?"
Então a garçonete me olhou de um jeito estranho, como se eu tivesse feito alguma pergunta absurda.
"Como assim sem sorvete?"
Desviei olhar para ganhar tempo e pensar em que tipo de resposta eu deveria dar. Tenho essa necessidade constante de agradar todo mundo, o tempo todo. Porque, obviamente, seria inconcebível viver num mundo em que alguém não fosse com a minha cara.
"A senhora não gosta de sorvete?"
"Não, é que... "
"Porque todo mundo gosta de sorvete", prosseguiu. "Seria estranho se a senhora não gostasse, só isso."
"Não, eu gosto, eu gosto", tentei consertar. "Mas é que eu gosto mais do petit gâteau e não queria comer duas coisas engordativas."
Nessa hora a Claudete me lançou um olhar de cima a baixo, seguido de um sorriso.
"Uma vezinha só não faz mal", concluiu sozinha. "A graça tá no sorvete."
"Não. A graça tá no petit gâteau. Se a graça estivesse no sorvete, a sobremesa se chamaria sorvete. E seria acompanhada de petit gâteau."
"Então eu posso mandar servir com sorvete?"
"Não! Eu não quero o sorvete!"
"Mas o preço é o mesmo sem sorvete", ameaçou.
"Não tem problema."
"Eu só tô dizendo que se a sobremesa inclui sorvete e você não vai pagar menos por tirar o sorvete, não vejo por que não pedir logo tudo."
"Porque eu não quero!", respondi, já exaltada.
"A senhora está dizendo que se eu trouxer o petit gâteau com sorvete num prato, a senhora vai comer o petit gâteau e deixar o sorvete? Não vai dar nem uma colherada?"
Fiquei muda por alguns instantes, incrédula.
"Aaahh, te peguei, hein", ela disse.
"Do que você tá falando? Não é pra colocar o sorvete no prato!"
"E é pra colocar onde?"
"Não me interessa! Pode comer, se quiser!"
"A senhora está insinuando que eu como do prato dos clientes?"
"Não! Só tô dizendo que já que você é a entusiasta do sorvete, pode ficar com o meu. Porque pelo tempo que a gente tá discutindo, eu já poderia ter comido a sobremesa duas vezes."
"Ok", ela disse, visivelmente ressentida.
"Ok?", confirmei, estranhando a súbita aceitação dela.
"Vou passar o pedido para a cozinha", respondeu, novamente virando-se para sair.
"Espera um pouco. Você não vai...", iniciei, constrangida. "Você não vai fazer nada com o meu petit gâteau, vai?"
"Como assim, senhora?"
"Eu reparei que você ficou chateada comigo. Mas isso não é motivo pra você incrementar meu prato com algum ingrediente especial."
Ela parou e cruzou os braços, esperando que eu concluísse a acusação.
"Você não vai cuspir no meu petit gâteau, vai?", perguntei de uma vez.
"Que absurdo, eu sou uma profissional", respondeu, ofendidíssima. "Mas é claro que acidentes acontecem."
"Não, não, não. Um cuspe não acontece. Um cuspe é planejado", expliquei, nervosa. "Por que você planejaria uma coisa dessas, hein, Claudete?"
"Não fui com a sua cara."
Aaahh, por que não? Foi alguma coisa que eu disse? Será que ela percebeu quando eu achei que ela parecia um traveco? Eu deveria comprar alguma coisinha como forma de me desculpar?, pensava, enquanto procurava manter a pose.
"Eu não faço as regras", ela continuou. "O petit gâteau vem acompanhado de sorvete. Todo mundo sabe. Ninguém nunca arrumou problema com isso. Mas aí chega a senhora, se achando melhor do que o resto das pessoas, querendo mudar as regras. Isso tem um preço!"
"E o preço é uma cuspidela no meu prato, é isso que você está me dizendo?"
Ela deu de ombros.
"Você quer mais dinheiro? Eu dou mais dinheiro! Eu pago pra você tirar o sorvete! Eu faço o que você quiser. Só me diz o que eu preciso fazer pra garantir que ninguém nessa cozinha troque fluidos com a minha sobremesa!"
"A senhora pode pedir o petit gâteau com sorvete", respondeu, calmamente. E sorriu, quase de maneira simpática.
Olhei em volta, com um sentimento de revolta e total impotência. Então fiz o que qualquer cidadão consciente faria naquelas circustâncias. Apenas me sentei e disse:
"Ok, pode trazer."
"Excelente escolha. A senhora não vai se arrepender", ela rebateu. E finalmente se virou para sair.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Guia de como parar de gostar de alguém


1 - Primeiro conheça alguém. Não sei exatamente onde - se alguém souber, por favor, me avise. O importante é achar essa pessoa. O resto acontece praticamente sozinho.
2 - Comece a gostar de alguém.
3 - Não faça mais nada. Apenas espere alguém te magoar - acredite, é só uma questão de tempo.
4 - Fique triste com alguém.
5 - Fique puta por estar triste.
6 - Lembre-se de alguém de quem você costumava gostar, antes de gostar de alguém.
7 - Ligue para alguém.
8 - Lembre-se de como alguém também já te magoou e esqueça a ideia toda.
9 - Não faça mais nada outra vez. Não fique triste, nem puta, nem coisa nenhuma. Apenas espere até não haver mais ninguém;
10 - Então conheça alguém.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Here Comes The Sun


Estava eu na praia, particularmente irritada por causa das nuvens de chuva que resolveram estacionar justo em cima do sol. Estava sozinha - se bem que, munida de um livro e de um mp3 player, ninguém está sozinha.
Pouco antes de virar a primeira página, reparei no cara bonitinho que me olhava a uma distância não exatamente grande. Ele também estava com seu livro e seu mp3 player, o que tornava a situação ao mesmo tempo engraçadinha e constrangedora.
Decidi voltar à leitura, quando uma abelha alcoólatra viciada em protetor solar veio dar uma de bully pra cima de mim. O resultado foi uma cena ridícula, uma espécie de dança do robô misturada com Matrix que, por alguma razão, foi atraente o bastante para fazer o cara vir ao meu socorro.
"Qual é o seu nome?", ele perguntou, logo depois de espantar a abelha.
Comecei a pensar em uma série de nomes plausíveis para dizer no lugar do meu verdadeiro. Não sei exatamente por que, mas me pareceu a coisa certa a se fazer.
"S-Soraia", respondi.
"Sério? Você demorou pelo menos uns dez segundos pra dizer Soraia e ainda gaguejou na hora.”
"Não. Não gaguejei não. Esse é meu nome."
"S-Soraia?"
"Sim", insisti, enquanto ele sorria de um jeito que eu não sabia se me irritava ou se me atraía.
"Então soletra."
Revirei os olhos em sinal de protesto.
"S-O-S-S-O-R-A-I-A", soletrei.
"Sossoraia?", perguntou, confirmando. "É prático porque quando alguém pergunta quem é você, é só responder: Sô-Soraia."
Ok, eu teria rido nessa hora. Mas me segurei, só de implicância.
"Bom, pelo visto o sol não vai sair mais hoje, então eu vou indo", eu disse, juntando minhas coisas.
"Você não quer me dar seu telefone?"
"Não."
"Não?", perguntou, surpreso com a minha franqueza.
"Não."
"Por quê, você tem namorado?"
Nessa hora eu tive uma espécie de síncope e não me recordo muito bem o que disse. Mas deve ter sido algo parecido com:
"Se eu tenho... Ha, essa é boa", comecei. "Deixa eu te falar como é que vai ser. Primeiro você vai me chamar pra sair, vai dizer que gosta de mim e depois que gosta muito de mim. E aí eu vou gostar de você. E depois gostar muito de você. E é nessa hora em que tudo vai começar a ficar confuso e difícil e frustrante e eu não vou ter outra escolha senão ir embora. E quando eu for, você vai fechar os olhos por dois segundos e ao abrir será como se eu nunca tivesse existido. Pra você. Porque eu vou continuar pensando nisso até aparecer outro cara bonitinho e irritante que vai perguntar meu nome e me chamar pra sair. E é por isso que não eu não vou te dar meu telefone", encerrei, recuperando o fôlego.
"Uau", ele soltou. "Você podia só ter dito que tinha namorado. Sério, eu teria aceitado essa resposta."
"Lamento, não tenho."
"Você é o quê, vidente?"
"Quase. Sou roteirista."
"Então você já elaborou o roteiro todo, já sabe tudo o que vai acontecer", constatou, enquanto eu fazia que sim. "Nesse caso, o que vai acontecer comigo depois que você for embora?"
"Você vai sair por aí pegando garotas bem menos interessantes, até que uma delas, provavelmente meio fanha e gorda, chamada Deise, vai ficar grávida e vocês vão acabar se casando. Mas você vai trair a Deise com a Cibele, que também vai ficar grávida e aí você vai passar o resto da vida trabalhando para pagar pensão pras duas, até um dia descobrir que os filhos nem eram seus."
"Caralho. Minha vida vai ficar uma merda depois que você for embora."
"Pois é."
"Então é melhor não deixar você ir nunca."
E, com essa, os dois ficaram em silêncio.
"Me dá seu telefone."
Olhei para ele e pensei, que se dane.
“Anota aí.”
"Pensando bem, é melhor não", reconsiderou. "Vai que eu sou um psicopata."
"Que tipo de psicopata avisa que é um psicopata?"
"Sei lá, o tipo sincero."
Dessa vez eu ri.
E quando eu menos esperava, as nuvens de chuva estavam a ponto de sair da frente do sol. Talvez, no fim das contas, aquele domingo nublado ainda fosse dar praia.

video
NINA SIMONE, Here Comes The Sun.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Quero Fotos dos Anos 70


Dia desses eu estava conversando com uns amigos sobre a última vez em que qualquer um de nós tinha visto uma fotografia impressa. Ninguém se lembrava ao certo, mas a conclusão foi unânime: fazia muito tempo.
Para mim, as fotos digitais são como os relacionamentos afetivos de hoje em dia. Prezam pela quantidade. Uma coleção enorme de momentos quase sempre bastante superficiais e transitórios.
Já não impõe mais respeito, nenhum dos dois. Você tira quantas fotos quiser, não precisa mais se preocupar com o limite. E, por isso mesmo, não é comum ver alguém pensando muito antes de sair por aí clicando. Ou ficando com pessoas.
Com tanta liberdade, em ambas as experiências, acaba sendo difícil a tarefa de selecionar os bons resultados - que, vão me desculpar, são raríssimos.
Na minha opinião, a única forma da fotografia realmente existir é quando está gravada na superfície de um papel. Antes disso ela é só um arquivo dentro de uma pasta no drive C. Não é de verdade. Não rasga, não amassa, não mancha. Não fica marcada pelo plástico do álbum, pelo vidro do porta-retrato, pelo calor, pela umidade. Não é nada além de uma porção de dígitos armazenados em uma máquina.
Quero fotos dos anos setenta. Quero lembranças de uma época em que cada foto importava. E que as pessoas nas fotos importavam mais ainda.
Quero fotos daquelas bem avermelhadas, desbotadas, gastas. Fotos de viagens incríveis. Fotos de estrada. Fotos que só têm graça para quem esteve lá. Quero olhar para elas daqui a trinta, quarenta anos e lembrar que naquele momento eu fui feliz. Com alguém.
Não faço mais questão de ter centenas de fotos aleatórias espalhadas pela pasta "Minhas Imagens". Quero as que durem, mesmo que apagadas pelo tempo. Prefiro essas aos arquivos esquecidos no HD do computador.
Quero fotos que tenham significado. Fotos de valor inestimável, a prova de vírus e cavalos de tróia. Fotos que, infelizmente, já não fazem parte da cultura da minha geração.
Mas eu pouco me importo. Não quero saber da insustentável leveza dos arquivos e das experiências zipadas. Gosto mesmo é de um bom vintage.



"QUERO FOTOS DOS ANOS 70", o vídeo. Obrigada a todos que colaboraram, especialmente à leitora Cláudia Oliveira, que me indicou o fantástico My Parents Were Awesome, de onde eu deliberadamente surrupiei várias fotografias.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Da Série: Rapidinhas da Psicótica


Ontem, na fila de uma lanchonete, ouvi um homem adulto cantarolar a seguinte pérola para uma criança:
"Vou comer açaí-í-í". Virei para trás, para ver de onde tinha saído aquela frase que soava como o refrão de uma música da Xuxa. "E você?", ele perguntou para o menininho em seu colo. "Vai querer suquinho de que frutinha? Vai querer de moranguinho? De laranjinha?", e seguiu enumerando sabores no diminutivo, como se tivesse algum tipo de problema mental.
Na boa. Se esse cara falasse desse jeito infantilóide com um filho meu, eu ia matar. Não, não. Eu ia sodomizar e depois matar. Se bem que ele ia acabar gostando da primeira parte. Aposto que se ele pudesse fazer um último pedido antes de morrer, seria: "Por favor, me sodomize." Então, melhor só matar mesmo. Ou aparecer com um homem lindo, alto e forte, e dizer: "Oi, esse aqui é o Raul e ele NÃO está aqui para te sodomizar." Assim o cara ia morrer mais triste.
Enfim, isso tudo foi só pra dizer que existe algo no mundo que me irrita mais do que crianças. E são adultos que falam como crianças. Não há nada mais perturbador e equivocado do que baby talk. Especialmente quando o "bebê" que está na cama tem mais de 21...

E continuem mandando fotos de casais dos anos 70 para adoravelpsicose@gmail.com! Tô adorando receber!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Quero Fotos dos Anos 70 (parte 1 - A Busca)


Bem, amigos da Psicose,

Para o próximo post, conto com a ajuda de vocês.

Preciso de fotos de casais dos anos 70. Podem ser seus pais, podem ser vocês, podem ser amigos, amigos de amigos, vizinhos, parentes distantes, pessoas desconhecidas cuja fotografia vocês encontraram em uma caixinha escondida no rodapé do banheiro... Enfim, o importante é que o casal da foto pareça feliz.

Podem mandar quantas fotos vocês quiserem para o adoravelpsicose@gmail.com, que eu vou ficar aguardando.

Se ninguém enviar nada, eu ataco todo mundo no chuveiro. E não do jeito divertido.

Beijos da Psicótica.